Antes de começar a escrever esta crónica, houve uma pergunta que não consegui evitar: que legitimidade tenho eu, sendo homem, para falar sobre mulheres e sobre a luta das mulheres? Durante séculos, foram sobretudo homens que definiram o que as mulheres podiam fazer, que lugar deviam ocupar, como se deviam comportar e até que direitos lhes podiam ser reconhecidos. Seria absurdo ignorar essa história e escrever como se a minha voz tivesse autoridade para explicar às mulheres a sua própria experiência. Não falo pelas mulheres. Não posso falar pelas mulheres, porque não vivo o que vivem, não enfrento as mesmas formas de discriminação e não tenho o direito de substituir a diversidade das suas vozes pela minha interpretação. Também não pretendo dizer-lhes o que devem pensar, que feminismo devem seguir ou de que maneira devem organizar as suas vidas. Mas desta premissa não resulta uma obrigação de silêncio. Posso falar sobre aquilo que observo, posso tomar posição perante um projeto político que pretende reduzir direitos e posso falar em defesa da liberdade das mulheres sem fingir que essa liberdade me pertence ou que fui eu quem a conquistou. Tenho esse dever.
Falar em defesa das mulheres também não significa considerá-las incapazes de se defenderem ou necessitadas de uma voz masculina que as represente. Significa colocar-me claramente do lado de quem exige igualdade, autonomia e dignidade. O patriarcado foi construído e mantido, em larga medida, por homens; seria profundamente conveniente concluir agora que combatê-lo é uma responsabilidade exclusiva das mulheres. Se os homens participam nas estruturas que produzem desigualdade, também têm a obrigação de as questionar e de se opor a quem pretende preservá-las.
Que me perdoem, portanto, as mulheres pela ousadia de tomar este tema como meu. Defender as mulheres é defender uma sociedade melhor, porque nenhuma sociedade pode considerar-se livre enquanto metade da população continuar sujeita a regras morais, religiosas e políticas que limitam as suas escolhas. Os direitos das mulheres não são um assunto reservado às mulheres, tal como a defesa da democracia não é uma responsabilidade exclusiva daqueles que primeiro sofrem quando ela falha. Dizem respeito a todos os que recusam viver numa sociedade organizada pela desigualdade.
Sei que as mulheres não formam um grupo homogéneo e que muitas discordarão desta crónica. Algumas integram precisamente o movimento que aqui critico. Têm todo o direito de ser conservadoras, religiosas, mães, esposas ou defensoras de um modelo tradicional de família. O que não têm é o direito de transformar essas escolhas numa obrigação para as outras.
Há qualquer coisa de profundamente obsceno numa sala cheia de mulheres reunidas para defender a diminuição da liberdade de outras mulheres. As que estavam no palco viajam, discursam, fundam movimentos, fazem política, ocupam cargos e constroem redes internacionais. Exercem direitos que outras mulheres conquistaram através de décadas de luta e usam-nos agora para defender que as restantes devem aceitar a maternidade como destino, a família tradicional como medida de respeitabilidade e a liberdade reprodutiva como sinal de decadência moral. É uma hipocrisia difícil de tolerar.
É isso que me provoca asco no recém-criado Movimento Mulheres Conservadoras Portugal. Não me incomoda que existam mulheres religiosas ou conservadoras, mães ou profundamente dedicadas à família, porque cada mulher deve poder organizar a vida como entender. Revolta-me que pretendam transformar essas escolhas pessoais numa norma para todas, converter uma convicção religiosa em política pública e impor um único modelo familiar como moralmente superior. As palavras “feminilidade”, “propósito” e “valores” não tornam este programa menos autoritário. Servem apenas para evitar que as suas consequências sejam ditas com clareza. Também recuso a desculpa condescendente de que estas mulheres não sabem o que fazem. Sabem, têm agenda política e devem responder pelo projeto que promovem. Uma mulher pode reproduzir o patriarcado, legitimá-lo e contribuir ativamente para retirar direitos a outras mulheres. A presença feminina num movimento não o transforma numa força de emancipação; neste caso, ajuda a tornar o antifeminismo mais aceitável, porque a regressão é apresentada por mulheres modernas que beneficiam precisamente das liberdades que pretendem relativizar ou negar às restantes.
É precisamente esse o mecanismo identificado numa investigação recente, que muito aconselho a leitura, sobre a mobilização de mulheres na extrema-direita portuguesa. A visibilidade feminina ajuda a normalizar mensagens sexistas e essencialistas, alarga o apelo eleitoral e torna o antifeminismo mais aceitável, e Rita Matias é apontada como uma figura central dessa estratégia, bem como um elo na circulação de repertórios antifeministas entre Portugal e o Brasil. A mulher moderna, bem apresentada, com acesso ao Parlamento e às redes sociais, transforma-se assim na alegada prova viva de que a desigualdade já não existe, ao mesmo tempo que usa esse acesso para defender papéis tradicionais para todas as outras. (Roque, Santos e Garraio, 2026)
O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal nasceu nas redes sociais, numa página de Instagram carregada de IA barata, no início de junho de 2026 e realizou o seu pré-lançamento a 11 de julho, no Palácio Valenças, um espaço público da Câmara Municipal de Sintra, ficando o lançamento oficial anunciado para novembro. Pelo palco passaram deputadas do Chega, influenciadoras e figuras da direita brasileira, entre as quais Priscila Costa, dirigente do PL Mulher, que veio a Portugal reafirmar o combate ao aborto e censurar aquilo a que chamou a “mentalidade abortista do povo europeu”. Seria, portanto, ingénuo confundir o encontro com um inocente círculo de senhoras reunidas para trocar ideias sobre a educação dos filhos: o que ali começou a instalar-se foi uma rede política transnacional, com ligações visíveis ao Chega, ao bolsonarismo e ao ativismo antiaborto.
Este movimento funciona como uma frente feminina da extrema-direita. As ligações ao Chega, ao bolsonarismo, ao ativismo antiaborto e a organizações da direita religiosa norte-americana não são coincidências. Definem o enquadramento político, fornecem contactos, oradores, métodos de comunicação e objetivos comuns. A finalidade é tornar o antifeminismo mais aceitável, recrutar mulheres para políticas que limitam os direitos das mulheres e apresentar o regresso aos papéis tradicionais como se fosse uma nova forma de liberdade. A investigação sobre a extrema-direita portuguesa identifica precisamente esta estratégia: colocar mulheres em posições de visibilidade para normalizar ideias sexistas, rejeitar as conquistas feministas e dar uma aparência feminina a um programa patriarcal. (Roque, Santos e Garraio, 2026)
A comunicação do movimento prefere falar de raízes fortes, princípios firmes, família, feminilidade e legado, porque essas palavras parecem inofensivas e evitam enunciar diretamente as proibições que sustentam o projeto. Primeiro define-se uma imagem ideal da “verdadeira mulher” e depois, todas as que não correspondem a essa imagem são tratadas como moralmente inferiores. A mulher que não quer ter filhos, a que interrompe uma gravidez, a que vive fora do casamento heterossexual, a que recusa a submissão religiosa ou a divisão tradicional dos papéis deixa de ser apenas alguém que escolheu uma vida diferente e passa a ser apresentada como parte de uma sociedade decadente.
A liberdade que propõem é ofensivamente limitada. Estas mulheres podem liderar, discursar, viajar, candidatar-se a cargos políticos e construir uma carreira pública, mas usam essa autonomia para defender que a vida das outras deve ser definida pela maternidade, pelo cuidado doméstico e pela religião. Estão a fazer carreira a dizer às outras que parir, cuidar e rezar o terço deve voltar a ocupar o centro das suas vidas. A contradição e a desonestidade são absolutamente asquerosas.
Estas mulheres traíram a luta feminina porque beneficiam de direitos conquistados por outras e colaboram conscientemente com forças políticas que pretendem restringir esses mesmos direitos. Trocaram a integridade, o caráter e a empatia por aquilo a que, usando uma linguagem religiosa que certamente compreenderão, podemos chamar trinta moedas de prata: lugares elegíveis, visibilidade mediática, convites internacionais, influência, acesso ao poder, crescimento nas redes sociais e a proteção de partidos e organizações da extrema-direita. Em troca, oferecem a sua imagem, a sua voz e a sua condição de mulheres para tornar o patriarcado mais apresentável. Na narrativa cristã, Judas não cria o poder que condena Cristo; limita-se a colaborar com ele, a entregar-lhe aquilo de que necessita e a receber uma recompensa pela traição. É isso que estas dirigentes fazem à luta das mulheres. A extrema-direita precisa de rostos femininos para negar que o seu programa é patriarcal e elas aceitam desempenhar essa função em troca de poder político e reconhecimento pessoal.
Mulheres não conservadoras, mas conversadoras! - Marta Nunes
A comissão fundadora era liderada pela médica Adelaide Cabete e integrava, entre outras, Maria Clara Correia Alves, Claudina de Almeida, Camila de Sousa Lopes, Maria da Luz Pereira e Silva, Maria Brazão e Maria Emília Baptista Ferreira, tendo Carolina Michaëlis de Vasconcelos sido escolhida como presidente honorária. Mais tarde, mulheres como Sara Beirão, Elina Guimarães e Maria Lamas assumiriam papéis decisivos na organização. Nenhuma delas se limitava a pedir que a sociedade reconhecesse às mulheres uma delicada influência no lar; reclamavam estatuto jurídico, voz política, educação, trabalho e presença pública, isto é, o direito elementar a existir para lá da função que a família, a Igreja e o Estado lhes tinham reservado.
O Conselho definiu-se como uma organização feminina, apartidária e não religiosa, federou associações, ligou-se ao International Council of Women e à International Woman Suffrage Alliance e manteve-se ativo durante trinta e três anos. Atravessou a Primeira República, a Ditadura Militar e o Estado Novo, agregando ao longo desse percurso vinte e quatro associações e preservando uma infraestrutura feminista num país marcado pelo analfabetismo feminino, pela fragilidade do associativismo e, sobretudo depois de 1926, pela repressão política. (Correia, 2013; CIG, 2023)
As suas militantes lutaram pelo acesso das mulheres à educação e à formação profissional, pelo direito ao trabalho, pela igualdade salarial e pelo sufrágio, ao mesmo tempo que defendiam a coeducação e legislação de proteção para as trabalhadoras. Exigiram alterações ao Código Civil relativas à situação da mulher casada, ao regime do casamento e à nacionalidade das portuguesas que casavam com estrangeiros, combateram a prostituição regulamentada, a dupla moral sexual e a mendicidade infantil e, para sustentar essas lutas, organizaram conferências, enviaram petições ao poder político e publicaram durante décadas o boletim Alma Feminina. Quando promoveram, em 1924 e 1928, os dois Congressos Feministas e de Educação, obrigaram a sociedade portuguesa a discutir publicamente problemas que esta preferia ignorar.
Nem todas essas reivindicações foram vitoriosas, a exigência do voto para todas as mulheres encontrou repetidas recusas, enquanto o sufrágio concedido em 1931 permaneceu cercado de restrições. O valor da organização também se mede, por isso, na capacidade de criar linguagem, memória, pressão política e ação coletiva onde antes havia sobretudo dispersão e silêncio. Mais profunda do que qualquer vitória isolada foi a possibilidade de muitas portuguesas começarem a pensar-se como cidadãs com interesses comuns e direitos exigíveis, em vez de permanecerem legal e socialmente dependentes do marido, do pai, da Igreja ou do Estado.
Já sob a presidência de Maria Lamas, em janeiro de 1947, o Conselho organizou na Sociedade Nacional de Belas Artes a Exposição de Livros Escritos por Mulheres, reunindo cerca de três mil obras de 1 500 autoras provenientes de vinte e oito países. O sucesso da iniciativa deu uma visibilidade inesperada à organização e desencadeou uma campanha da imprensa ligada ao regime, que associou o feminismo ao comunismo e o Conselho à oposição política, até que, meses mais tarde, o Governo Civil de Lisboa ordenou o seu encerramento. A ditadura percebera perfeitamente o perigo: mulheres que leem outras mulheres, conhecem a própria história e se organizam para falar em nome próprio tornam-se muito mais difíceis de devolver à obediência. (Correia, 2013; Borges, 2022)
É este passado que torna o novo movimento tão revoltante. O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas aproveitou os poucos meios de que dispunha para aumentar os direitos, a autonomia e a participação pública das mulheres. O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal beneficia dessas conquistas para defender uma redução da autonomia feminina. Onde umas exigiam que a mulher fosse reconhecida como sujeito de direitos, as outras voltam a defini-la sobretudo como mãe, esposa, guardiã da moral e instrumento de reprodução. Esta inversão é repugnante.
Foi neste ponto que a presença da Rita Matias no evento me fez pensar em Serena Joy. Em The Handmaid’s Tale, Serena é uma mulher inteligente (eu não disse que eram igualzinhas…), politicamente ativa e influente que participa na criação de um regime que retira voz, autonomia e espaço público às mulheres, convencida de que a sua posição a protegerá das regras que defende. Depois descobre que não há uma exceção permanente reservada às mulheres que ajudaram a instituir a repressão. Rita Matias não é Serena Joy, mas a função política é inquietantemente semelhante: uma jovem deputada, emancipada e detentora de poder, empresta legitimidade feminina a um movimento que pretende voltar a definir as mulheres pela maternidade, pela família e pela obediência moral.
Entre as oradoras encontrava-se também a brasileira Débora Luciano, advogada, ensaísta, colunista da plataforma Lumine e autora de um livro cujo título dispensa subtilezas: Autópsia do Feminismo. A presença de uma escritora num encontro político é relevante, sobretudo quando a sua obra se apresenta como o diagnóstico definitivo de um movimento que transformou a vida de milhões de mulheres. Num evento empenhado em recuperar uma definição moral e religiosa da “verdadeira mulher”, Luciano oferecia mais do que uma opinião, um livro com quatrocentas páginas, linguagem filosófica, bibliografia e aparência de autoridade intelectual.
O próprio título condiciona a discussão, se existe uma autópsia, a morte já foi declarada. Luciano não pergunta se o feminismo continua necessário, quais foram os seus erros ou que divergências existem entre as suas várias correntes; anuncia que morreu e assume a autoridade para explicar a causa. A descrição editorial acompanha essa conclusão ao afirmar que o feminismo começou na reivindicação de direitos, avançou até à “liquefação da identidade feminina” e acabou por matar a própria mulher. Depois de recordarmos o trabalho do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, esta tese é particularmente revoltante. As lutas pela educação, pelo trabalho, pelo salário, pelo voto e pela personalidade jurídica são reinterpretadas como etapas de um processo de decadência. A mulher conquista direitos e o livro acusa essas conquistas de terem contribuído para o seu desaparecimento. É uma inversão intelectualmente desonesta e politicamente perigosa.
A estrutura do livro é assumidamente teológica. A autora procura as raízes religiosas do imaginário feminista e recupera a maternidade, a carne, o simbólico e a figura da Virgem, a própria escreve num Substack dedicado à “questão feminina” e é colunista da Lumine, que se apresenta como a maior plataforma católica de streaming do Brasil e avisa que “a Lumine não é para todos”. O fanatismo está em usar uma fé particular para definir o que todas as mulheres devem ser e em avaliar a sua autenticidade pela proximidade à maternidade, à dependência, ao sacrifício e a uma feminilidade determinada pela religião. Uma crença individual é legítima mas a tentativa de a transformar em norma social e política para todas as mulheres não é.
Logo na abertura, Luciano adapta a parábola do louco de Nietzsche para apresentar “um homem louco, vestido com uma saia e usando batom” que procura a “verdadeira mulher”. O objetivo é reduzir uma mulher trans a um homem delirante e tratar a identidade de género como uma alucinação grotesca, antes de concluir que o feminismo esvaziou a própria palavra “mulher”. Isto ultrapassa uma reflexão religiosa sobre maternidade ou uma crítica a determinadas correntes feministas. É uma tentativa de decidir quem merece ser reconhecida como mulher e de humilhar publicamente quem não corresponde à definição biológica e teológica da autora. É cruel, degradante e incompatível com qualquer defesa séria da dignidade humana.
É por isso que um livro destes não pode ser tratado como mais uma extravagância inofensiva da indústria editorial conservadora. Os livros transmitem e legitimam ideias, incluindo ideias violentas, e uma afirmação brutal ganha aparência de seriedade quando é publicada com bibliografia e citações filosóficas. Um dia, alguém citará Autópsia do Feminismo num debate, numa conferência, num parecer ou numa intervenção parlamentar como se a publicação do livro provasse as suas conclusões. Não prova. O livro parte de uma definição religiosa e essencialista da mulher, declara o feminismo morto e organiza os argumentos necessários para justificar essa conclusão. Ainda assim, será citado para dar cobertura intelectual a afirmações transfóbicas, à limitação dos direitos reprodutivos e à ideia de que a autonomia tornou as mulheres menos femininas. É assim que o preconceito passa a ser apresentado como conhecimento.
O programa do encontro torna-se ainda mais preocupante quando chegamos a Jonathan Hall. A organização apresentou-o através de expressões vagas e favoráveis: criador de redes de colaboração entre organizações da sociedade civil, empreendedorismo de impacto e sustentabilidade e referência a uma participação na formação da Sound of Freedom Foundation e da 4 America Foundation. O registo público que consegui confirmar identifica Jonathan Hall como coordenador internacional da Sound of Freedom Foundation. Em junho de 2025, Hall esteve no Senado Federal do Brasil numa sessão de homenagem às organizações que trabalham “pela vida” e “pela família”, realizada no contexto da Marcha Nacional pela Vida, onde partilhou a mesa com Damares Alves, com a presidente da Frente Parlamentar Mista Contra o Aborto e com representantes do movimento Brasil Sem Aborto. No seu discurso, ligou explicitamente o combate ao tráfico de crianças ao combate à interrupção da gravidez e afirmou que “Nenhuma criança brasileira será vendida, nenhuma criança brasileira será assassinada no ventre.” (Senado Federal do Brasil, 2025)
A Sound of Freedom Foundation existe legalmente, apresenta o EIN 33-2773413 e figura como organização 501(c)(3) no Texas. Segundo o próprio site, a fundação pretende prolongar a influência do filme Sound of Freedom, de 2023, e coloca o produtor Eduardo Verástegui no centro da sua ação internacional. Verástegui está longe de ser uma figura humanitária politicamente neutra e tentou candidatar-se à presidência do México com um projeto de direita cristã, opõe-se ao aborto e à inclusão LGBTQ+ e preside à CPAC México. A fundação destaca no seu site a CPAC, sessões privadas do filme e contactos com Donald Trump, Giorgia Meloni, Javier Milei e Nayib Bukele. Nenhum destes elementos invalida, por si só, o trabalho que possa ser realizado contra o tráfico humano, mas demonstra que a causa está integrada numa rede política conservadora e é utilizada para obter acesso a governos e dirigentes. (Sound of Freedom Foundation; Associated Press, 2023; CPAC, 2025)
A questão torna-se ainda mais delicada quando se chega à transparência financeira. A fundação declarou à American Life League (uma organização que lhe é ideologicamente favorável) que funciona como integrated auxiliary of a church, classificação que lhe permite legalmente não apresentar o Form 990, o documento público onde uma organização sem fins lucrativos normalmente revela receitas, despesas, remunerações e distribuição dos fundos. O IRS confirma que estes auxiliares religiosos estão dispensados dessa declaração e a Charity Navigator, por sua vez, não consegue atribuir uma classificação à fundação por não dispor dos dados públicos necessários. Isto não prova qualquer desvio de dinheiro, mas significa que um doador ou um jornalista não consegue escrutinar, através das contas públicas habituais, quanto dinheiro entra, quanto chega efetivamente aos programas e quem é remunerado. Numa organização que solicita donativos recorrendo a uma causa emocionalmente devastadora, essa impossibilidade constitui um défice material de transparência. (IRS; Charity Navigator; American Life League)
Também a credibilidade técnica levanta dúvidas os números dos factos apresentados no website são acompanhados apenas pelo nome genérico de uma organização, sem ligação para o estudo, a data ou a metodologia. Pode tratar-se de uma falha de programação, mas essa explicação não é aceitável para uma fundação que se apresenta como referência global, recolhe donativos e pretende aconselhar governos. Dados sobre tráfico infantil exigem rigor, fontes e responsabilidade. Apresentá-los desta forma é inadmissível. (Sound of Freedom Foundation)
A 4 America Foundation levanta um conjunto diferente de problemas. Segundo a apresentação do evento de Sintra, Hall ajudou a formá-la, mas não encontrei uma fonte independente que confirme essa relação, pelo que a atribuição deve permanecer apenas como aquilo que é, uma afirmação dos organizadores do encontro. Já o conteúdo político da fundação não deixa margem para dúvida. Os seus quatro pilares incluem o direito à posse de armas, a oposição ao aborto, a definição do casamento exclusivamente como união entre homem e mulher e o combate à imigração irregular e às chamadas cidades-santuário; o site acrescenta ainda um testemunho de apoio a Donald Trump e a Eduardo Verástegui e termina com o apelo “America First”. Chamar a isto sustentabilidade ou empreendedorismo de impacto é um escândalo. Trata-se de ativismo político da direita cristã norte-americana. (4 America Foundation)
A opacidade da organização também é evidente. A 4 America Foundation diz ter sido fundada por “cidadãos” comprometidos com a fé, a família e a liberdade, mas não identifica fundadores, direção ou conselho de administração; ao mesmo tempo, solicita dados pessoais e pagamentos por cartão, garante que os donativos são fiscalmente dedutíveis e fornece apenas uma caixa postal na Virgínia, sem exibir um EIN nas páginas públicas consultadas. Como se isto não fosse suficiente para recomendar cautela, centenas de ligações de hacklink, apostas, acompanhantes e esquemas de SEO aparecem inseridas no conteúdo técnico do site. A observação pública não permite determinar se a página foi comprometida por terceiros ou deliberadamente usada numa rede de manipulação de motores de pesquisa, mas qualquer das hipóteses revela uma falha grave de segurança e governação digital num espaço que recolhe dinheiro.
Existe, pelo menos, uma estrutura profissional de angariação, uma vez que a Dominion Strategy Group apresenta a 4 America Foundation como cliente ou parceira. A empresa especializa-se em campanhas de donativos por correio direto, afirma trabalhar a ligação emocional entre a mensagem e o público e inclui entre os seus clientes organizações como a Heritage Foundation e coligações de “Faith & Freedom”. A contratação de uma agência de fundraising não é, em si mesma, suspeita, mas confirma que esta obscura organização faz parte de uma estrutura profissional de recolha de contactos, mobilização política e donativos baseada em temas como religião, imigração, família e indignação moral. (Dominion Strategy Group)
Foi tudo isto que se reuniu em Sintra sob a designação aparentemente moderada de “mulheres conservadoras”. Deputadas do Chega, dirigentes bolsonaristas, influenciadoras, ensaísmo antifeminista apresentado como filosofia, ativismo antiaborto, redes religiosas norte-americanas e organizações cuja transparência varia entre o insuficiente e o alarmante. O movimento ainda mal nasceu e já deixou claro ao que vem. Não pretende representar a diversidade das mulheres. Pretende impor uma definição de mulher baseada na maternidade, na família heterossexual, na religião e na obediência a papéis tradicionais, classificando as restantes como egoístas, desviantes ou perigosas.
O meu asco não se dirige à fé, à maternidade ou à família. Dirige-se à utilização dessas experiências para controlar a vida das mulheres e retirar-lhes escolhas. Dirige-se a mulheres que beneficiam de séculos de luta feminista para falar, votar, estudar, trabalhar, ser eleitas e ocupar espaço público, mas que usam esses direitos para atacar o movimento que os tornou possíveis. Dirige-se à desonestidade de chamar “liberdade” a um programa que pretende proibir, limitar e condenar as escolhas das outras. E dirige-se à arrogância de quem acredita ter autoridade para decidir que mulheres são legítimas, que famílias são aceitáveis e que vidas merecem respeito.
Em 1914, mulheres com pouquíssimo poder organizaram-se para exigir educação, trabalho, salário, voto e personalidade jurídica. Em 1947, uma ditadura encerrou-lhes a associação porque até uma exposição de livros escritos por mulheres era considerada perigosa. Agora, em 2026, outras mulheres servem-se da democracia, do Parlamento, das redes sociais e de um palácio municipal para promover uma ordem moral que volta a medir o valor feminino pela maternidade, pela família e pela submissão a uma suposta natureza.
O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas lutou para que as mulheres fossem reconhecidas como cidadãs completas. O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal usa essas conquistas para defender uma sociedade em que as mulheres voltam a ser avaliadas pela maternidade, pela família e pela submissão religiosa. Ao escolherem colaborar com a extrema-direita neste projeto, estas mulheres traíram a luta feminina e colocaram a ambição política e mediática acima da integridade, do caráter e da empatia pelas outras mulheres. Não são um movimento de mulheres em defesa das mulheres. São mulheres ao serviço da extrema-direita contra os direitos das mulheres. Não há nada de inocente, inspirador ou emancipador nisto. É uma tentativa organizada de fazer recuar direitos e de normalizar novamente a desigualdade. Merece escrutínio, oposição política e toda a nossa revolta.
Prafraseando Bernardina Brito : Ganhem vergonha nessa puta dessa cara e façam-se mulheres, porcas do caralho.
Mil perdões pela linguagem, foi o melhor eufemismo que encontrei.
Pagomes - Hangar Social






Fecharem o texto parafraseando a Bernardina tornou-o, ainda mais, genial.