Não escrevo aqui há algum tempo.
Podia dizer que foi por falta de tempo, e não seria mentira. Podia dizer que foi por excesso de trabalho, por cansaço, por vida acumulada, por falta de cabeça, e também haveria verdade nisso tudo. Mas essas justificações servem apenas até certo ponto. A verdade mais honesta é que não tenho escrito aqui porque ando a escrever noutro lado e porque escrever tem sido mais difícil do que eu estava disposto a admitir.
Tenho andado a escrever um livro.
Só esta frase já me irrita um pouco. “Estou a escrever um livro” parece sempre uma frase demasiado limpa para a confusão que descreve. Parece que há um plano, uma rotina, uma secretária organizada, capítulos numerados, notas bem classificadas e uma ideia clara do caminho. No meu caso, há cadernos, folhas soltas, apontamentos em sítios improváveis, frases que não sei onde encaixar, dúvidas que se multiplicam e uma quantidade preocupante de páginas que acabam riscadas, arrancadas ou condenadas ao silêncio de uma gaveta.
Escrever um livro dá trabalho. Muito mais trabalho do que a imagem romântica da escrita deixa perceber. Não é apenas ter uma ideia e seguir atrás dela com ar inspirado. É insistir quando a ideia perde brilho. É escrever quando a frase não vem. É voltar ao mesmo parágrafo dez vezes e continuar a achar que há ali qualquer coisa fora do sítio. É passar uma tarde inteira a escrever duas páginas e, no fim, perceber que talvez só meia dúzia de linhas sobrevivam. E mesmo essas ficam sob vigilância.
Há um cansaço próprio da escrita que não se parece com o cansaço físico. Não é como carregar peso, subir escadas ou passar horas de pé. É um cansaço mais difícil de explicar, porque por fora uma pessoa parece apenas estar sentada a olhar para uma folha. Mas por dentro há uma discussão permanente. O pensamento quer correr, a memória aparece aos bocados, as sensações chegam sem legenda, e a mão tenta acompanhar tudo isso antes que desapareça.
O que eu quero, na verdade, é escrever antes de começar a corrigir-me.
Quero escrever directamente do pensamento, das memórias e das sensações para a caneta, e da caneta para o papel. Sem filtrar. Sem aquele fiscal a carimbar cada frase antes de ela nascer. Sem a PIDE do bom gosto a perguntar se isto fica bem, se isto se entende, se isto é demasiado íntimo, demasiado estranho, demasiado meu. Quero apanhar a ideia ainda quente, antes de ela se arranjar para aparecer em público.
Mas isto, que dito assim parece simples, é uma trabalheira.
Porque há sempre uma voz a meter-se no caminho. Uma voz que pergunta se aquilo presta. Se não estou a repetir-me. Se não parece vaidoso. Se não parece pobre. Se alguém vai entender. Se eu próprio vou entender amanhã. E quando dou por mim já não estou a escrever. Estou a fiscalizar a escrita. Estou a interromper a frase antes de ela acabar. Estou a tentar polir uma coisa que ainda nem existe.
A caneta está na mão, o caderno está aberto, há qualquer coisa a pedir para sair, mas entre a cabeça e o papel instala-se uma espécie de controlo fronteiriço. O pensamento chega com a mala cheia de memórias, cheiros, imagens, vergonhas antigas, conversas mal resolvidas, sensações sem nome. E logo aparece o guarda: “documentos, por favor”. A frase fica retida. A memória perde força. A sensação arrefece. E aquilo que podia sair vivo acaba por sair correcto, aceitável, arrumado. Ou então não sai.
Há dias em que escrevo duas ou três páginas convencido de que finalmente encontrei o tom. A mão solta-se, a cabeça alivia, a memória começa a puxar por outras memórias e durante algum tempo acredito que é por ali. Não sei se está bom, mas pelo menos está vivo. Depois releio. E percebo que aquilo talvez esteja vivo apenas para mim. Eu sei o que queria dizer. Eu sei de onde veio aquela imagem. Eu sei que cheiro tinha aquele lugar, que voz tinha aquela pessoa, que peso tinha aquele silêncio. Mas no papel está tudo meio torto, meio cifrado, como se eu tivesse deixado pistas para uma versão de mim que já não está ali.
Para outra pessoa, se calhar, aquilo não diz nada. Para mim diz demais.
Mais uma folha para o lixo.
Ou para a pilha das folhas que não são bem lixo, porque quem escreve sabe que há uma crueldade específica em deitar fora uma página. A página pode estar má, mas teve trabalho. Teve tempo. Teve uma tentativa. Às vezes teve até uma frase que ainda se aguenta de pé no meio dos destroços. E então fica ali, como prova de que naquele dia tentei.
O manuscrito, entretanto, continua a olhar-me de lado.
Não sei explicar isto sem parecer ridículo, mas qualquer pessoa que tenha um projecto por acabar sabe que as coisas inacabadas ganham uma espécie de presença moral. O manuscrito está ali, mesmo quando não está à vista. A olhar de soslaio, a mandar bocas, armado em parvo. Está na mesa, na mochila, no canto da cabeça. Não fala, mas julga. Há apenas aquela sensação de que alguma coisa ficou à minha espera e eu voltei a falhar o encontro.
Passo por ele e sinto uma culpa pequena, mas persistente. A culpa de não escrever. A culpa de escrever pouco. A culpa de escrever mal. A culpa de ter escolhido fazer outra coisa qualquer, mesmo quando essa outra coisa era necessária. A culpa de estar cansado e, ainda assim, achar que devia produzir. Como se escrever um livro fosse também uma prova de carácter, e cada dia sem escrever uma pequena derrota moral.
Sei que isto é injusto. Sei que ninguém escreve bem debaixo de chicote. Mas saber uma coisa não impede que a culpa se sente ao nosso lado.
Durante algum tempo tentei resolver isto com organização. Achei que o problema era falta de método. Fiz esquemas, mind maps, listas de temas, tabelas de prós e contras, possíveis estruturas, divisões por capítulos, ideias principais, ideias secundárias, notas sobre notas. Tentei arrumar o livro antes de o escrever, como se fosse possível.
Durante uns dias, aquilo até deu uma sensação falsa de progresso. Havia setas, caixas, palavras sublinhadas, páginas com títulos e uma aparência geral de pessoa funcional. Mas, quanto mais organizava, menos escrevia. A cada esquema novo, o livro parecia afastar-se mais.
Cheguei a um ponto em que já não sabia se estava a escrever um livro ou a gerir o projecto de um livro. E gerir o projecto de um livro é uma excelente maneira de evitar escrever o livro.
A certa altura, percebi que os esquemas me estavam a servir de abrigo. Enquanto fazia mind maps, não tinha de enfrentar a página. Enquanto desenhava ligações entre temas, não precisava de escrever a cena difícil. Enquanto fazia uma tabela de prós e contras, podia adiar a frase que me assustava. E a frase que assusta é quase sempre a que interessa.
Por isso decidi simplificar, embora “simplificar” seja uma palavra generosa para descrever o que provavelmente é apenas desistir de controlar tudo. Vou escrever o que me der na real gana. Depois logo vejo. Logo corto. Logo colo os parágrafos uns aos outros. Logo descubro se aquilo é um capítulo, uma nota, um fragmento, uma memória ou só mais uma página que não vai sobreviver.
Neste momento preciso de letras para formar palavras, para formar frases. Preciso de páginas sujas, de gastar tinta. Preciso de frases ainda mal vestidas. Preciso de escrever antes de compreender completamente o que estou riscar no papel. Talvez o entendimento venha depois. Talvez a estrutura venha depois. Talvez o livro só comece a mostrar o que é quando eu parar de lhe exigir que se explique antes de existir.
A disciplina talvez seja precisamente sentar e escrever mesmo sabendo que pode sair mal. Talvez seja aceitar a imperfeição da primeira passagem. Talvez seja confiar que o trabalho verdadeiro não está apenas em produzir uma página bonita, mas em suportar a página feia tempo suficiente para perceber se há ali alguma coisa aproveitável.
A disciplina não é transformar a escrita em produção em série. É voltar ao caderno mesmo depois de uma sessão falhada. É pegar na caneta quando ontem correu mal. É não fazer da vergonha um método de trabalho. É permitir que o pensamento passe para o papel sem ser logo domesticado, sabendo que mais tarde virá a parte menos romântica: cortar, reescrever, reorganizar, perceber que metade do que parecia essencial afinal era apenas ruído.
Escrever à mão ajuda-me nisso.
O papel e a caneta têm uma lentidão que me faz falta. No computador, tudo me parece demasiado fácil de corrigir, apagar, substituir, alinhar. A frase ainda está a nascer e eu já estou a mexer-lhe na cara. No papel, a rasura fica. O erro não desaparece com uma tecla. Fica ali, riscado, visível, quase honesto. A mão obriga o pensamento a um ritmo diferente. Não mais calmo, necessariamente, mas mais físico. Mais próximo.
A minha terapia é escrever com papel e caneta. Não porque isso resolva alguma coisa de forma milagrosa, mas porque me obriga a estar presente no acto. A caneta não me salva, o caderno não me organiza a vida, a folha não me dá respostas. Mas há qualquer coisa naquele gesto que me devolve ao corpo. A cabeça deixa de ser apenas ruído e passa a ter uma saída. Mesmo que a saída seja torta. Mesmo que acabe no lixo.
Tenho uma relação talvez demasiado séria com cadernos e canetas. Há cadernos que comprei com a convicção absurda de que aquele papel específico ia desbloquear uma fase decisiva da minha vida. Há canetas que uso para certos tipos de texto e outras que rejeito com uma indignação difícil de justificar racionalmente. Uma má caneta não impede ninguém de escrever bem, eu sei. Mas também não ajuda. E quando uma pessoa já está a lutar com a frase, não precisa que a esferográfica venha sabotar o fluxo de letras.
Há dias que basta olhar para uma caneta para ter vontade de escrever com ela, outros dias nenhuma das mais de 50 me serve. Hoje ando obcecado com a Zebra Sarasa Grand com tinta de gel e ponta de 0.5mm, ontem foi a Uniball Zento Signature de tinta de gel e ponta de 0.38mm. Amanhã pode ser uma Kaweco, uma TWSBI, ou uma Montblac de aparo com uma tinta da Endless Alchemy - wizards pencil ou mystic forest. É esse o tempero que dá sabor à minha escrita, sem isso sabe-me tudo àquelas bolachas de esferovite, as de arroz que ainda são piores que as de milho.
No meio desta dificuldade toda, há uma coisa que me tem sabido bem: o Marginália, o clube de leitura que a Raquel Dias da Silva , em boa hora, criou.
Tenho gostado muito daquele exercício mental. Ler com outras pessoas obriga-me a sair da minha cabeça, e isso é importante quando se passa demasiado tempo fechado dentro do próprio manuscrito. No Marginália, o texto não é apenas aquilo que eu vejo. É também aquilo que os outros encontram nele. Uma frase que me passou ao lado pode ser central para outra pessoa. Uma personagem que eu li de uma forma pode abrir uma discussão completamente diferente quando alguém lhe pega por outro ângulo.
E depois há as pessoas. As pessoas daquele grupo têm enriquecido o meu dia a dia mais do que talvez imaginem. Há ali uma disponibilidade para pensar em conjunto que não encontro em muitos lugares. Não é uma competição para ver quem percebeu melhor o livro, quem tem a interpretação mais brilhante ou quem cita mais autores por minuto. É uma conversa. E uma conversa verdadeira, hoje em dia, já começa a parecer quase um luxo.
Gosto daquela mistura de leitura, escuta e partilha. Gosto de perceber como cada pessoa leva para o livro a sua história, a sua sensibilidade, as suas dúvidas. Gosto da forma como uma leitura se transforma num exercício de atenção. E talvez isso também esteja a mexer com a minha escrita. Porque escrever, afinal, também é aprender a prestar atenção. Às palavras, às memórias, às pessoas, ao que fica por dizer.
Estas pessoas vão fazer parte deste livro de uma maneira ou de outra. Quero que todos o leiam antes, sonho com ilustrações da Marta Nunes , um prefácio da carolina novo e outro da Rita Dantas (só pra chatear), uma edição da Raquel Dias da Silva , um poema da maria duran na última página, quero que o João Azevedo tenha uma cooperativa a funcionar para publicar o livro, um lançamento organizado pela Carolayne Ramos com uma exposição temática e uma tertúlia com a Sónia , o André Carvalho dos Santos e a Rosalinda Rita . Enfim, gostava que todos os marginális fizessem parte desta absoluta estupidez em que me meti.
Talvez seja por isso que me apeteceu voltar aqui. ( Obrigado Rafaela Silva pela recomendação do Ellipsus, onde tenho escrito mais e gosto muito!)
Não prometo um regresso disciplinado, até porque já tenho promessas suficientes a olhar para mim de lado. Volto porque precisava de escrever sobre esta dificuldade. Sobre o facto de escrever não ser apenas produzir texto. Sobre a parte invisível, trabalhosa e por vezes ingrata de tentar passar uma coisa da cabeça para o papel sem a matar pelo caminho.
Queria escrever sobre escrever. Sobre canetas, cadernos, folhas rasgadas, esquemas inúteis, culpa, disciplina e confusão. Sobre esta tentativa de deixar o pensamento chegar ao papel antes de ser filtrado por medo, vaidade ou vergonha. Sobre a estranha conclusão de que, às vezes, para escrever melhor, talvez seja preciso aceitar escrever pior durante bastante tempo.
Continuo sem saber exactamente como vou acabar o livro que estou a escrever. E talvez isso me incomode menos hoje do que incomodava ontem. Sei que há ali qualquer coisa. Não sei ainda a forma. Não sei ainda a ordem. Não sei ainda o tom definitivo.
A melhor maneira de comer um elefante? Uma dentadinha de cada vez.
Por agora, resta-me isto: abrir o caderno, pegar na caneta e escrever. Se não prestar, paciência.
Mais uma folha para o lixo.
Mais uma folhaAbro o caderno e deixo a tinta correr, da memória ao papel, sem usar razão; se o medo se senta antes de eu escrever, rasgo-lhe o nome no meio do chão.Do pensamento faço risco e guarida, da sensação faço papel e abrigo; se não prestar, paciência à vida: mais uma folha perdida comigo.
Gostava que me ajudassem a decidir qual será o tema do próximo texto aqui no Substack portanto, se chegaram até aqui, façam lá um cliquezito aí em baixo:
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Por ti, tudo. Até um prefácio do tipo João Bonifácio meets Clara Ferreira Alves.
(e assino por baixo de tudo o que escreveste sobre o Marginália)
Não estou a escrever nenhum livro, mas sinto o mesmo quando escrevo e não escrevo. E é uma maluqueira de gente mesmo doida porque escrever sabe tão bem!